O cão que não era cão
por Vitor Binelo
Deixou a faca sobre a mesa esquadrinhando dos pés à cabeça as duas figuras encapuzadas que adentraram no estabelecimento. Em seguida, pendera mais uma lebre abatida ao lado das demais.
O local era mal cheiroso, e também assustador sob a luz trêmula dos archotes. O indivíduo mais baixo se aproximou de seu companheiro à medida que caminhavam em direção ao velho carrancudo atrás de um decadente balcão de carvalho.
— Em que posso ajudá-los? — perguntou o atendente em um tom de voz ríspido.
Um dos clientes deixou cair o capuz revelando sua magnífica face celestial com traços femininos. As orelhas pontudas aparecendo sobre as madeixas prateadas.
— Ouvi dizer que você tem... raiz de mandrágora.
O homem fitou a elfa com os olhos semicerrados, e depois, vergou os lábios. Sem dizer uma palavra, desaparece mancando em um canto escuro, para, minutos mais tarde, surgir com um pedaço de tronco viscoso. Com a faca, cortara apenas o comprimento de meio dedo da raiz.
— Para que vocês querem isso? — indagou o vendedor de mercadorias ilícitas.
A elfa olhou de esguelha para a sua amiga que permanecera no anonimato. De repente, o miado esganiçado de um gato preto esquelético chamara a atenção de todos. O velho passou seus dedos sujos no pelo eriçado do animal, visando acalmá-lo. O gato demonstrava nervosismo com a presença da elfa e do outro sujeito.
— Raiz de mandrágora... — começou o balconista. — Muito difícil de se encontrar. É também conhecida por “Toque de Anjo”, já que é o principal ingrediente para a proibida... Poção do Amor...
— Bem, como o senhor mostrou possuir um grande conhecimento... Deve, então, saber que para o preparo da Poção do Amor é necessário uma bruxa que tenha uma elevada noção em Proficiência Arkana. O que não existe mais, graças as suas leis... humanas.
— Elfa asquerosa — silvou o homem.
— Ora, como ousa me chamar de asquerosa seu...
— Muriel! Pare! Por favor, precisamos da raiz.
A elfa franziu as sobrancelhas para a amiga, decepcionada.
— Certo, quanto custa a raiz? — disse Muriel.
— Quatro galeões.
— Isso é um absurdo! — protestou, Muriel.
— Já disse que não são fáceis de achá-las. As mandrágoras só crescem numa região ao norte das cordilheiras geladas...
— Certo, certo... Sei onde elas crescem.
Após hesitar por alguns instantes, Muriel se desfez das moedas de ouro com um aperto angustiante no coração.
A chuva caía forte quando a elfa e a jovem humana abandonaram o galpão fétido. Ambas permaneceram em silêncio a maior parte do caminho de volta para casa. Selena era uma garota de poucas palavras, complacente, quanto que Muriel possuía um gênio forte e facilmente explosivo. Tratavam-se da dupla perfeita. O Yin-Yang. A personalidade de uma complementa a outra. O que na maioria das vezes resultava em ótimos finais para suas aventuras.
— Se não tivesse me impedido, teria decapitado aquele velho nojento com minha espada! — vangloriou-se Muriel.
— De que jeito? Você mal consegue manusear uma faca para descascar uma laranja!
— Tenho treinado novos movimentos, caso não saiba!
— Entendo — disse Selena com sarcasmo. — De qualquer modo, você deixou sua espada no nosso esconderijo.
— Poderia ter conjurado-a para mim.
— Claro... E revelar ao mundo que sou uma bruxa!? Não podemos nos dar ao luxo de sermos imprudentes. E também precisamos ajudar Kalenze. Foi por nossa culpa o coitado ter sido afetado pelo encantamento goblin.
— Tem certeza que esse plano vai funcionar?
— Ele tem que funcionar! Pensamento positivo, minha cara! Lembre-se, apenas energias positivas ao nosso redor!
Selena abrira a porta do esconderijo que ficava na orla da Floresta Sem Fim. Como o próprio nome insinuava, aquela região guarnecida de árvores se estendia por milhares de quilômetros. Tratava-se de um perfeito refúgio, pois ninguém se atrevia a andar naquelas terras devido ao fato da floresta ser habitada por inúmeras criaturas de índoles hostis.
— Finalmente chegamos! Muriel, avise Kalenze — pediu Selena serenamente.
— Totó — urrou Muriel. — Onde está você, garoto?!
— Ha-ha... Estou enfartando de tanto rir, Muriel — falou com desprezo uma estranha voz animalesca.
— Sei que sou hilária, não há necessidade em me dizer — retorquiu a elfa.
— Posso até parecer um cachorro... Mas não sou um! — bradou um cão de pelos bagunçados, aos pés da elfa.
— Oh... o menininho da mamãe está nervosinho...!
Em resposta, o cão mostrou as presas e rosnou se preparando para atacar, entretanto, não fora o suficiente para a esbelta elfa recuar.
— Não vá babar no tapete — avisou, Muriel —, senão a titia Selena ficará funesta!
— Pelos céus! Será que as duas criaturas não conseguem ficar cinco minutos sem se alfinetarem? — questionou, Selena.
— A Muriel quem começou — reclamou Kalenze, pulando sobre uma cadeira. A elfa lhe enviou um olhar por cima do ombro que o fez estremecer. — Então, conseguiram o tal Toque de Anjo?
— Está me devendo quatro galeões — cobrou, Muriel.
— O quê?! É devido a uma falha sua que fui transformado num cachorro — concluiu coçando a orelha com a pata traseira. — Ah, não suportarei por mais muito tempo essa situação.
— Do que está reclamando? Não mudou muita coisa desde que era um humano. A única coisa que faz é comer e dormir! ESTORVO!
— Muriel, por favor, acalme-se — exigiu Selena. — Enfim. Temos tudo para preparar a Poção do Amor. Nada do que estava no grimório das minhas antepassadas funcionou. No entanto, enquanto lia uma nota de rodapé, tive uma ideia. O encantamento goblin que transformou Kalenze num cão é magia antiga, mas não existe nada mais poderoso do que o sentimento. São as emoções que traçam o destino de todos os seres, principalmente os humanos. Muitos dizem que essa é nossa maior fraqueza, contudo, acredito que é algo que nos enobrece...
— Vá direto ao ponto — interrompeu, Muriel.
— Certo — prosseguiu Selena. — Simplesmente faremos alguém se apaixonar por Kalenze e com o beijo de uma pessoa que o ame, provavelmente voltará ao normal.
— Humpf... Será difícil fazer alguém se apaixonar por esse pulguento — reclamou, Muriel.
— Justamente para facilitar isso, faremos alguém tomar a Poção do Amor contendo um fio de cabelo de Kalenze.
— No caso, um pelo — esclareceu a elfa. Selena assentiu.
A chuva ainda batia com estrondo no telhado quando a jovem bruxa fora descansar após preparar a poção. Muriel sentou-se ao lado de Kalenze para observar a chuva noturna. Ambos debateram por horas qual deveria ser a garota quem tomaria a Poção do Amor. Kalenze sempre sugerira a mais bela, a mais formosa, a mais popular... e, lógico, Muriel não perdia a oportunidade de satirizar. Mas apesar de todas as ofensas e discussões, não conseguia compreender a razão da agonia em seu peito. Assim que Kalenze voltasse ao normal, o rapaz provavelmente retomaria sua vida habitual, só que dessa vez, ao lado da princesa dos seus sonhos. Bem lá no íntimo, Muriel sentiria muita falta da companhia de Kalenze nas noites solitárias.
Quando a primeira luz do dia raiou no horizonte, a elfa, a bruxa e o cão partiram tendo como destino o vilarejo.
— Em breve retornarei a ser um homem viril! — exclamou, Kalenze.
— Claro, se você se tornar viril, então a Muriel é a rainha da esgrima — ironizou Selena. Muriel soltou uma gargalhada ruidosa.
— Isso mesmo Sel... Ei! Sou ótima na arte de manejar uma espada!
— Ah, não é mesmo! — disse Selena.
— Onde estão os pensamentos positivos agora? Em, Sel?
— Tenho que concordar com a Selena. Você é péssima com uma lâmina, Muriel. Agora com um arco e flecha, não há ninguém melhor! — falou Kalenze.
— Ele tem razão — concluiu, Selena.
O vilarejo encontrava-se calmo e não fora difícil localizar a futura amada de Kalenze. A garota trabalhava durante o dia na taberna mais frequentada da vizinhança. Assim que adentraram, o cão fitou a jovem de cabelos escuros e ondulados, pele clara como a neve e um sorriso angelical; seu perfume lembrava jasmim. Era quase tão bela quanto o povo élfico. Há boatos de que sua aparência e personalidade graciosa é resultado da existência de uma ninfa em sua árvore genealógica.
— Então, precisamos fazer com que ela beba a Poção do Amor — sussurrou Selena.
— Isso não será problema — comentou Kalenze, sacudindo o rabo.
— Esperem! — falou de repente a elfa. Kalenze e Selena travaram o passo a caminho do balcão de atendimento. — Kalenze, tem certeza de que realmente quer fazer isso?
— Fazer o quê? Voltar a ser humano e ter ao meu lado uma descendente de ninfas? — Kalenze observou-a, perplexo. — Não preciso pensar duas vezes!
— Só não acho que esse seja o melhor para você — sibilou Muriel. — Digo, não é apaixonado por ela...
— Desde quando você, Muriel, se preocupa com os sentimentos das outras pessoas? — indagou Selena, desconfiada da atitude da amiga.
— Vocês estão certos... Faça o que achar melhor, Kalenze. — E puxando Selena para um canto afastado, falou:
— Você, Sel, que toma tanto cuidado com suas atitudes, concorda com o fato daquela garota viver uma mentira pelos próximos anos?
— Confesso que isso não me agrada, mas temos uma dívida de vida com Kalenze. Todavia, a Poção do Amor possui um prazo de validade, e Elli pode acabar se apaixonando realmente.
Após algumas taças de vinho acompanhadas da garçonete, a dupla de aventureiras conseguiu misturar a poção junto da bebida da moça, e esta bebera sem sentir diferença.
E como conta a lenda, a poção funcionou instantaneamente. Elli achava-se perdidamente apaixonada por um cão, que na realidade não era cão.
A garota ajoelhou-se ao chão, em frente a um esperançoso Kalenze. Ela contraiu os lábios em um sorriso carinhoso, acariciando a cabeça do animal. O momento tão esperado finalmente estava para acontecer. Elli encostou sua boca doce-mel no focinho do cão. O coração de todos disparado. Entretanto nada ocorreu. Kalenze continuou do mesmo modo.
— O que aconteceu? — indagou Kalenze. — Por que não voltei ao normal?
— Aconteceu o que temia. Por mais que Elli esteja apaixonada por você, não é um sentimento verdadeiro. Sinto muito... Não sei mais o que fazer... — disse Selena.
— Tudo bem — falou Kalenze, cabisbaixo.
O trio, decepcionado, encontrou uma forma de fugir dos amassos afetuosos de Elli para voltar ao esconderijo. Kalenze passara o restante do dia atirado ao chão, temendo jamais voltar a ser humano. Naquela noite, enquanto avistava a lua e as estrelas, Kalenze sentiu pela primeira vez a compaixão de Muriel. Ela, com toda certeza, estava diferente.
Palavras se foram e novas vieram, a conversa se prolongou por horas. E com um impulso súbito, a elfa de cabelos prateados encostou seus lábios no cão, e em um passe de mágica o amor deles se concretizou. Kalenze voltara a ser o rapaz viril que sempre fora.
FIM
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